Empreender com o Sol: O que a GEM e a Greener revelam sobre o Brasil que gera energia e negócios

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O Brasil está vivendo uma revolução silenciosa. Ela não faz barulho de turbina, nem cheiro de combustível. Ela acontece nos telhados, nas pequenas empresas e nos contratos assinados por micro e pequenos negócios que decidiram transformar luz em estratégia.

A transição energética brasileira não é só tecnológica, é empresarial. O avanço das energias renováveis, especialmente da geração solar fotovoltaica, tem sido sustentado pela decisão estratégica de empreender com o sol, um movimento liderado por milhares de pequenos negócios espalhados pelo país.

São eles que instalam sistemas, estruturam projetos, viabilizam financiamento, fazem manutenção e traduzem inovação em aplicação prática.

Se antes falar de energia era falar de grandes usinas e decisões centralizadas, hoje a geração distribuída deslocou parte relevante da produção para o consumidor final. O Resultado? Pequenos negócios no centro da transformação. 

Energia deixou de ser só infraestrutura,  virou estratégia, competitividade e um diferencial econômico. Mas crescer rápido tem um preço.

O setor avançou em um ambiente complexo: mudanças regulatórias frequentes, margens pressionadas, concorrência crescente, dependência de insumos importados e um consumidor cada vez mais informado. Agora, o mercado entra em uma nova fase: consolidação e maturidade.

E aí surge a pergunta chave: Quem é o empreendedor que está sustentando essa transformação?

Duas lentes para enxergar o mesmo país

De um lado, a GEM (Global Entrepreneurship Monitor), a maior pesquisa global sobre empreendedorismo. Um retrato macro do empreendedor brasileiro. De outro, os estudos da Greener, especializados no mercado de geração distribuída, olhando diretamente para as empresas integradoras solares

Colocar essas duas lentes lado a lado é quase como comparar o Brasil empreendedor em geral com o Brasil empreendedor movido a sol. E as diferenças dizem muito.

O empreendedor brasileiro médio (segundo a GEM)

 é dono de pequenos negócios. Geralmente com até cinco pessoas ocupadas. Seu empreendimento costuma ser jovem,  ainda em consolidação.

A motivação? Predominantemente oportunidade, mas a necessidade ainda pesa no cenário nacional. A expectativa de crescimento tende a ser moderada. Foco em estabilidade e sobrevivência.

A inovação, na maioria dos casos, é incremental. Produtos e serviços já existentes no mercado. Existe uma percepção significativa de risco. E o medo de fracassar aparece como fator que pode limitar decisões de investimento ou expansão.

É um empreendedor resiliente. Mas enfrenta gargalos estruturais: formalização, crédito, escala, qualificação gerencial e competitividade. 

E o empreendedor solar?

Aqui o desenho muda. As empresas são majoritariamente formalizadas,  uma exigência do próprio setor elétrico informal praticamente não existe. O mercado exige conexão à rede, contratos formais, financiamento estruturado e conformidade técnica.

Há concentração relevante de empresas com mais de cinco anos de atuação, muitas entre cinco e dez anos de mercado. Ou seja: o setor já passou pela fase da entrada desordenada. Está em consolidação.

As equipes são enxutas, dois a dez colaboradores, mais estruturadas. Funções técnicas e comerciais bem definidas. E aqui está um divisor de águas: O capital humano.

Enquanto na leitura macro da GEM a qualificação varia amplamente, no setor solar a formação técnica é condição básica de operação: engenheiros, técnicos, profissionais especializados.

O erro técnico vai muito além da reputação; ele compromete a segurança, a validade dos contratos e a própria sustentabilidade financeira do negócio.

A análise comparativa revela distinções claras nas dimensões do perfil de quem decide empreender com o sol, abrangendo maturidade do negócio, estrutura organizacional e capital humano. 

O empreendedor solar aparece com maior maturidade, melhor estrutura e capital humano mais robusto. Mas isso não significa ousadia irrestrita.

Inovação: evolução, não ruptura

Mesmo com o aumento da maturidade e da qualificação, a inovação no setor solar permanece majoritariamente incremental. Raramente ocorrem rupturas estruturais nos modelos de negócio; trata-se de uma inovação “com os pés no chão”, onde a diferenciação acontece por meio de:

  • Eficiência operacional;
  • Diversificação de serviços e ampliação de portfólio;
  • Melhoria de atendimento;
  • Incorporação gradual de soluções, como armazenamento e gestão energética.

Nesse cenário, o risco muda de cara. Se no empreendedorismo em geral (GEM) o medo de fracassar é algo subjetivo, cultural e individual, na geração distribuída o risco é eminentemente operacional. 

Ele se manifesta em mudanças regulatórias, na dependência de financiamento, na volatilidade dos preços dos equipamentos e na pressão constante sobre as margens. Como consequência, o comportamento do empreendedor tende a ser conservador, priorizando sempre a eficiência e a preservação de caixa. 

O grande insight

O empreendedor da geração distribuída já se encontra em um estágio mais avançado de maturidade empresarial. No entanto, ele ainda opera sob restrições estruturais que limitam movimentos agressivos de inovação e expansão.

Enquanto no empreendedorismo brasileiro em geral o grande desafio reside na entrada e na formalização, no setor solar a dor é outra: evolução, diferenciação e escala sustentável. E essa distinção muda tudo.

O que isso significa para o Polo Sebrae de Energias Renováveis?

Já não basta apenas estimular a abertura de novos negócios; é preciso qualificar estrategicamente quem já está no “jogo”. O foco do Polo Sebrae de Energias Renováveis se volta para o fortalecimento de:

  • Gestão financeira e planejamento de longo prazo;
  • Análise regulatória constante;
  • Diversificação de modelos de negócio;
  • Incorporação estruturada de inovação.

O Polo assume, portanto, o papel de articulador e indutor dessa maturidade. Sua atuação busca oferecer suporte técnico e estratégico para que o empresário possa empreender com o sol de forma segura, integrando inteligência setorial, governança e desenvolvimento de soluções.

Ao sistematizar dados, acompanhar tendências regulatórias e traduzir informações técnicas em orientação prática, o Polo reduz as assimetrias de informação e eleva o nível de coordenação de todo o setor.

Afinal, crescer já não é suficiente. A expansão acelerada mostrou o potencial dos pequenos negócios, mas o momento agora exige organização, sofisticação e consolidação. É preciso crescer com sustentabilidade, competitividade e capacidade de adaptação.

Nesse contexto, a integração entre a visão macro da GEM e a leitura setorial da Greener oferece a base sólida necessária para posicionar o Polo como referência nacional em inteligência aplicada às energias renováveis.

O futuro da energia é empreendedor

A transição energética brasileira não será definida apenas por recursos naturais ou avanços tecnológicos; ela dependerá, acima de tudo, da nossa capacidade de transformar esse potencial em negócios sólidos, organizados e resilientes.

Para que essa evolução se concretize, quatro pilares são fundamentais:

  • Empreendedores preparados;
  • Ambiente regulatório previsível;
  • Acesso a conhecimento estratégico;
  • Coordenação institucional.

O futuro da energia passa, obrigatoriamente, pelos pequenos negócios. O grande desafio agora é garantir que eles estejam devidamente estruturados para liderar o próximo ciclo de desenvolvimento do setor. E o sol, ao que tudo indica, continuará brilhando.

Referências Bibliográficas

GREENER, Estudo Estratégico Geração Distribuída- Mercado Fotovoltaico. Março de 2025

Relatório Executivo Empreendedorismo no Brasil- 2024- GEM ( Global Entrepreneurship Monitor). ANGEPE e SEBRAE.

imagem do autor

Escrito por:

Lorena Roosevelt

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