Tributação na geração distribuída: o que há de novo com a nova regulamentação de 2026

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Com a publicação do regulamento sobre a Contribuição Social sobre Bens e Serviços, o setor de energia passa a ter um cenário mais claro sobre os impactos da Reforma Tributária nos modelos de negócios.

A tributação na geração distribuída entrou em uma nova fase. A publicação do Decreto nº 12.955, de 29 de abril de 2026, estabeleceu um marco para o mercado de energias renováveis no Brasil no contexto da Transição Energética junto com a Reforma Tributária.

A nova norma regulamenta a Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS), consolidando o primeiro passo prático de uma profunda mudança no sistema tributário nacional.

Para compreender o peso dessa regulamentação, é preciso olhar para o contexto em que a norma se insere. O decreto faz parte da implementação ampla da Reforma Tributária, que institui o sistema de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) Dual.

Nesse novo arranjo, os antigos tributos federais sobre o consumo, como o PIS e a COFINS, dão lugar à recém-criada CBS. Os impostos estaduais e municipais, ICMS e ISS, serão progressivamente substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Para o setor de energias renováveis, essa modernização simplifica a arrecadação. Mas altera inúmeros pontos importantes e urgentes, como a base de rentabilidade dos projetos.

O impacto mais direto do decreto incide sobre os modelos e os negócios operados com micro e minigeração distribuída (MMGD), a exemplo das usinas de investimento.

A tributação na geração distribuída define, na prática, quanto sobra de retorno para quem investe, para quem integra e para quem consome energia solar. Com a Reforma Tributária, regras que antes dependiam de convênios estaduais e de legislações específicas passam a seguir um padrão nacional, e os detalhes do Decreto nº 12.955/2026 precisam entrar na conta de cada projeto.

Neste artigo, você entende o que muda com a CBS e com o IBS, quais usinas mantêm a exclusão da base de cálculo, como ficam a TUSD e a geração compartilhada e o que integradores e investidores devem revisar em contratos e propostas comerciais.

Cronograma da Reforma Tributária para o setor de energia

A CBS passa a ser cobrada em 2027, com a extinção do PIS e da COFINS. O IBS substitui o ICMS e o ISS de forma gradual entre 2029 e 2032, e o novo sistema vale integralmente em 2033.

Segundo o cronograma divulgado pela CNN Brasil, a cobrança efetiva da CBS começa em 2027, junto com o fim do PIS e da COFINS. A troca de ICMS e ISS pelo IBS ocorre entre 2029 e 2032, e a vigência integral do novo sistema chega em 2033.

Esse calendário dá tempo de adaptação, mas não elimina a urgência. Contratos de longo prazo firmados agora atravessam as fases de transição e precisam prever os novos tributos desde a origem.

CBS e a exclusão da base de cálculo para energia compensada

A CBS não incide sobre a energia compensada no SCEE quando a usina tem até 1 MW de potência instalada. Acima desse limite, o benefício deixa de valer, e a rentabilidade do projeto precisa ser recalculada.

O texto publicado trata da energia compensada pelos participantes do Sistema de Compensação de Energia Elétrica (SCEE). Esse valor ficará de fora da base de cálculo da nova CBS.

No entanto, a regra impõe uma limitação clara: a exclusão tributária é válida apenas para usinas com potência instalada de até 1 MW.

Projetos acima desse limite perdem esse benefício. Com o novo regramento, a base de cálculo para quem opera com energia solar passa por mudanças em sua arquitetura.

A separação entre energia como bem e rede como serviço

O Decreto nº 12.955/2026 limita a exclusão da base de cálculo à Tarifa de Energia (TE). Os encargos de uso da rede, como a TUSD, ficam de fora do benefício e geram impacto financeiro para os novos entrantes das regras GD II e GD III.

O Decreto estabeleceu uma fronteira estrita entre a “energia elétrica como bem” e a “infraestrutura de rede como serviço”.

A exclusão da base de cálculo do novo imposto aplicável à Geração Distribuída ficou limitada à parcela correspondente à Tarifa de Energia (TE). Os encargos de uso da rede ficaram de fora desse benefício.

Ao vedar que a exclusão englobe esses encargos, a nova legislação cria um impacto financeiro direto para os novos entrantes do Marco Legal da GD, nas regras GD II e GD III.

O pagamento escalonado da TUSD instituído pela Lei 14.300/2022 implica no pagamento do tributo sobre o uso do fio, conforme previsão do art. 15, §2º, inciso I do Decreto.

Historicamente, o ICMS compõe sua própria base de cálculo, o chamado “cálculo por dentro”. A energia injetada na rede era passível de isenção mediante autorização do Convênio ICMS 16/2015 do CONFAZ.

Com a reforma, a CBS e o IBS substituirão gradativamente esses impostos. Os empreendimentos de minigeração que superam a faixa de 1 MW perdem essa camada de incentivo e precisam recalcular o retorno financeiro dos projetos.

STF, LC 194/2022 e a disputa sobre TUST e TUSD

O STF ainda decide se TUST e TUSD podem ficar fora da base de cálculo do ICMS, e a discussão se estende à era do IBS. A definição determina se o consumidor pagará imposto sobre o transporte da energia ou apenas sobre o consumo efetivo.

Essa cobrança sobre os custos de transmissão e distribuição dialoga com um intenso debate no Supremo Tribunal Federal (STF).

A Lei Complementar 194/2022 havia classificado a energia elétrica como um bem essencial. Isso, em tese, limitaria as alíquotas e excluiria a TUST e a TUSD da base de cálculo do antigo ICMS.

Porém, essa remoção dos encargos da base tributável foi judicializada e suspensa temporariamente pelo STF.

Com a transição para o IBS, o conceito de essencialidade da energia continuará a ser testado nos tribunais. A definição do STF vai determinar se o consumidor pagará o imposto integral sobre o “transporte” da energia ou apenas sobre o seu consumo efetivo.

Esse assunto já foi tratado no blog do Polo SEBRAE de Energias Renováveis.

Novos impactos sobre os modelos de negócio na MMGD

Com a reforma, a locação de ativos geradores, base das usinas de investimento, passa a integrar a incidência do IBS e da CBS. A legislação prevê redutores de alíquota e um regime optativo por receita bruta para contratos legados, o que suaviza a mudança.

Diante dessas mudanças, os modelos de negócio na MMGD passarão por novas abordagens. A perspectiva de retorno em médio e longo prazo muda de forma relevante.

No cenário atual, a locação do ativo gerador, conhecida também como usinas de investimento, está fora do campo de incidência do ICMS e do ISS. Essa atividade se sujeita essencialmente à tributação federal sobre renda e receita.

Com a Reforma Tributária, a Emenda Constitucional nº 132/2023, regulamentada pela Lei Complementar nº 214/2025 e pelo Decreto nº 12.955/2026, a atividade de locação, arrendamento e cessão temporária de bens foi expressamente inserida na base de incidência do IBS e da CBS.

Para mitigar o impacto, a legislação introduziu redutores de alíquota e um regime optativo baseado na receita bruta para contratos legados.

Geração compartilhada: vedação expressa na nova legislação

O Decreto nº 12.955/2026 veda a exclusão da energia compensada da base de cálculo da CBS em todas as formas de geração compartilhada, como consórcios, cooperativas e associações. Na prática, a regra reduz a margem para descontos ao consumidor final.

As mudanças são ainda mais evidentes no modelo de geração compartilhada. Antes vistos como meros veículos de repasse de créditos, os consórcios, cooperativas e associações agora enfrentam alterações mais claras com a nova legislação.

No cenário atual, esses modelos já enfrentam alta complexidade: pagam PIS/COFINS e dependem de legislações estaduais específicas para mitigar o ICMS. O advento da reforma padroniza a tributação.

A nova legislação veda expressamente o direito de excluir a energia compensada da base de cálculo da CBS para todas as formas de geração compartilhada. Isso comprime as margens de desconto oferecidas aos consumidores finais.

O tratamento está previsto no art. 15 do Decreto 12.955/2026:

Art. 15. Exclui-se da base de cálculo da CBS o valor da energia elétrica fornecida pela distribuidora à unidade consumidora, na quantidade correspondente à energia injetada na rede de distribuição pela mesma unidade consumidora, acrescido do valor dos créditos de energia elétrica originados na própria unidade consumidora no mesmo mês, em meses anteriores ou em outra unidade consumidora do mesmo titular.

[…]

§ 2º A exclusão de que trata o caput deste não se aplica:

II – às unidades consumidoras de energia elétrica participantes dos sistemas de compensação de energia nas seguintes modalidades:

a) geração compartilhada, por meio de consórcio, cooperativa, condomínio civil voluntário ou edilício, ou associação civil constituída para esse fim;

b) empreendimento com múltiplas unidades consumidoras.

O que muda no planejamento tributário da geração distribuída

O planejamento tributário na geração distribuída passa a exigir revisão de contratos, simulação de rentabilidade com a CBS e separação entre receitas de locação e de serviços. A mudança vale para integradores, investidores e consumidores finais.

Com a publicação do Decreto nº 12.955/2026, reorientações passarão a ser necessárias nos planejamentos dos modelos de negócios. Isso vale tanto para o integrador e o investidor como para o consumidor final.

A fase de estruturação da geração distribuída vai exigir um nível maior de profissionalização imediata.

A transição do antigo sistema de ICMS, PIS e COFINS para o IVA Dual promete maior transparência. Mas impõe revisões relevantes: a restrição da exclusão da CBS apenas para usinas de até 1 MW e a cobrança do tributo sobre modelos em geração compartilhada.

Na prática, a rentabilidade das fazendas solares não dependerá mais apenas da eficiência tecnológica dos painéis. Será necessária uma engenharia jurídica que consiga isolar adequadamente as receitas de locação de ativos daquelas oriundas de prestação de serviços.

Integrador solar

O integrador precisa deixar claro ao cliente que a economia na conta de luz depende da potência da usina, do modelo contratado e da parcela tributada. Propostas comerciais que ignoram a CBS e a TUSD escalonada tendem a superestimar o retorno. A atenção às novas regras de medição, tema do artigo sobre medição inteligente e o integrador solar 2.0, também compõe esse diagnóstico.

Investidor e dono de usina

Quem investe em usinas acima de 1 MW ou em modelos de locação precisa recalcular o retorno com a CBS e o IBS. A separação entre receita de locação do ativo e receita de serviços ganha peso na estrutura dos contratos, inclusive nos legados, que podem optar pelo regime baseado na receita bruta.

Consumidor final e geração compartilhada

Participantes de consórcios, cooperativas e associações podem encontrar descontos menores, porque a exclusão da CBS não se aplica a esses modelos. Vale comparar a proposta de desconto com o custo tributário embutido antes de assinar o contrato.

Checklist de adequação tributária para projetos de MMGD

A adequação começa pela potência da usina e pelo modelo de negócio, passa pela separação das receitas e termina na revisão dos contratos. Seguir essa ordem evita surpresas na rentabilidade quando a CBS e o IBS estiverem em plena vigência.

  1. Confirme a potência instalada da usina e se ela fica dentro do limite de 1 MW.
  2. Identifique o modelo do projeto: autoconsumo remoto, geração compartilhada, usina de investimento ou empreendimento com múltiplas unidades consumidoras.
  3. Separe as receitas de locação de ativos das receitas de prestação de serviços.
  4. Simule a rentabilidade com a CBS e com a TUSD escalonada.
  5. Revise contratos legados e avalie o regime optativo baseado na receita bruta.
  6. Acompanhe o julgamento do STF sobre TUST e TUSD e as mudanças regulatórias do setor, como a decisão da ANEEL sobre curtailment.

Adequação tributária na geração distribuída: como o Polo SEBRAE apoia sua empresa

Diante dessa nova fronteira em que o custo tributário pode definir a rentabilidade de um projeto, a adequação legal deixa de ser um detalhe contábil para se tornar o principal ativo estratégico do integrador.

É exatamente nesse ponto de inflexão que o Polo SEBRAE de Energias Renováveis reafirma seu papel, traduzindo o peso do novo arcabouço regulatório em diretrizes práticas e seguras para a tomada de decisão.

Ao dominar as regras da nova tributação na geração distribuída e blindar os contratos de geração compartilhada e autoconsumo remoto, os pequenos e médios empreendedores transformam o desafio da conformidade fiscal em um diferencial competitivo.

Isso garante a atratividade e a expansão segura dos negócios na economia verde. Conheça as soluções do Polo SEBRAE e entre em contato com a equipe para adequar seu modelo de negócio ao novo cenário tributário.

Perguntas frequentes sobre tributação na geração distribuída

1. O que é a CBS e como ela afeta a geração distribuída?

A CBS, sigla de Contribuição Social sobre Bens e Serviços, é o tributo federal que substitui o PIS e a COFINS dentro do IVA Dual. O Decreto nº 12.955/2026 a regulamenta e define como ela incide sobre a energia no Sistema de Compensação de Energia Elétrica.

Para a geração distribuída, o ponto central é a base de cálculo: parte da energia compensada fica fora da cobrança, desde que a usina atenda aos requisitos do decreto. Por isso, o tamanho da usina e o modelo de negócio passam a influenciar diretamente o custo tributário do projeto.

2. A energia compensada deixa de ser tributada pela CBS?

Em parte. A energia compensada pelos participantes do SCEE fica fora da base de cálculo da CBS, mas apenas para usinas com potência instalada de até 1 MW.

A exclusão alcança somente a parcela correspondente à Tarifa de Energia (TE), e não os encargos de uso da rede. Projetos acima de 1 MW perdem o benefício e precisam recalcular o retorno financeiro.

3. A TUSD entra na base de cálculo da CBS?

Na prática, sim. A exclusão da base de cálculo não cobre os encargos de uso da rede. Com o pagamento escalonado da TUSD previsto na Lei 14.300/2022, o tributo incide sobre o uso do fio, conforme o art. 15, §2º, inciso I do decreto.

O efeito financeiro atinge principalmente os novos entrantes do Marco Legal da GD, enquadrados nas regras GD II e GD III.

4. A geração compartilhada mantém a exclusão da CBS?

Não. O decreto veda a exclusão da energia compensada da base de cálculo da CBS para todas as formas de geração compartilhada, como consórcios, cooperativas, condomínios civis voluntários ou edilícios e associações civis constituídas para esse fim.

A regra também alcança empreendimentos com múltiplas unidades consumidoras. Com isso, as margens de desconto oferecidas aos consumidores finais tendem a diminuir.

5. As usinas de investimento passam a pagar IBS e CBS?

A locação, o arrendamento e a cessão temporária de bens entraram expressamente na base de incidência do IBS e da CBS, conforme a Emenda Constitucional nº 132/2023, a Lei Complementar nº 214/2025 e o Decreto nº 12.955/2026.

Hoje, a locação do ativo gerador fica fora do ICMS e do ISS e se sujeita essencialmente à tributação federal sobre renda e receita. Para suavizar o impacto, a legislação criou redutores de alíquota e um regime optativo baseado na receita bruta para contratos legados.

6. Quando a CBS e o IBS passam a valer?

A cobrança efetiva da CBS começa em 2027, com a extinção do PIS e da COFINS. A substituição do ICMS e do ISS pelo IBS ocorre de forma gradual entre 2029 e 2032, e o novo sistema entra em vigência integral em 2033.

Como os contratos de geração distribuída costumam ter prazo longo, vale prever os novos tributos desde já nas propostas e nos acordos firmados.

7. O que o integrador solar deve revisar agora?

Revise propostas comerciais, contratos e simulações de retorno. Verifique a potência instalada de cada usina, o modelo contratado (autoconsumo remoto, geração compartilhada ou locação) e o impacto da TUSD escalonada.

Separe as receitas de locação de ativos das receitas de serviços e confirme se contratos legados podem aderir ao regime optativo. A orientação de especialistas, como a oferecida pelo Polo SEBRAE, reduz o risco de erro na estruturação.

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Escrito por:

Diego Mendonça

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