A conta que não fecha: O custo de energia elétrica na competitividade dos pequenos negócios
10/08/26
Em recente estudo publicado pelo Centro de Liderança Pública intitulado “Energia cara freia a Competitividade”, alertou para um custo de energia elétrica que tem impactado negativamente ano a ano os pequenos negócios em todo o país.
Para o micro e pequeno empresário brasileiro, o mês começa com uma corrida contra os custos fixos. Antes mesmo de realizar a primeira venda, o caixa da empresa já está comprometido com aluguel, folha de pagamento, impostos e, de forma cada vez mais impactante, a conta de luz.
Indicadores de faturamento e custos mostram que o controle rígido dessas despesas é o que separa a sobrevivência do aperto financeiro crônico nos primeiros anos de operação.
O custo fixo engessa a capacidade de investimento do empreendedor. Quando a margem de lucro é estreita, qualquer oscilação não programada em uma tarifa essencial consome o capital de giro.
É nesse cenário que o custo da eletricidade deixou de ser apenas uma despesa de rotina para se tornar um dos principais gargalos de competitividade no país.
Energia entre os quatro custos que mais pesam nas MPEs
A pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, conduzida pelo Sebrae, mapeia continuamente esse aperto. O levantamento mostra que o aumento dos custos operacionais é a principal dificuldade enfrentada por donos de micro e pequenas empresas (MPEs).
Negócios que operam com margens justas e dependem do uso intensivo de aparelhagem, refrigeração ou climatização, como o varejo de alimentos, indústrias alimentícias e serviços de alimentação (restaurantes e panificadoras), são severamente atingidos.
Para esses segmentos, a energia figura como um dos quatro custos mensais de maior impacto (ao lado de insumos, combustíveis e aluguel). A tarifa de energia elétrica consome até 5% do faturamento da maioria das empresas atendidas, mas chega a representar entre 6% e 10% do faturamento mensal para 27% dos pequenos negócios.
Sem caixa para modernizar equipamentos antigos ou para absorver as altas tarifárias sem repassá-las diretamente aos clientes, o pequeno empresário vê sua competitividade corroída mês a mês.
O paradoxo da matriz limpa e da tarifa cara
Essa perda de tração é explicada a fundo pelo Centro de Liderança Pública (CLP) no estudo “Energia cara freia a competitividade”. O levantamento aponta um paradoxo estrutural: o Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas e renováveis do mundo, o que deveria garantir energia barata.
Na etapa de geração, a eletricidade brasileira é realmente competitiva. O gargalo se forma no trajeto entre a usina geradora e o medidor do consumidor.
Segundo o CLP, 69,6% (mais de dois terços) da tarifa final não remunera a geração de energia em si. Esse sobrecusto é composto pela distribuição (26,1%), tributos (18,1%), encargos setoriais (15,2%) e transmissão (10,1%).
O estudo aborda o impacto que isso tem na indústria de grande porte, como no pequeno varejo. Quando ampliamos essa questão para as MPs, as consequências são muito mais agressivas para os pequenos negócios, que operam compulsoriamente no mercado cativo das distribuidoras e não possuem a musculatura financeira das grandes fábricas para absorver os choques tarifários.
Os maiores reajustes da Aneel para 2026
A gravidade desse mecanismo ficou exposta nos processos de reajuste tarifário homologados pela Aneel para o ciclo de 2026. Enquanto a inflação oficial seguiu patamares moderados, diversas distribuidoras impuseram reajustes muito superiores.
O aumento de 20,51% na Copel (Paraná) ou de 18,89% na CPFL Santa Cruz, por exemplo, retira de imediato milhares de reais anuais do fluxo de caixa de comércios locais, sem que o negócio receba qualquer contrapartida em melhoria do fornecimento de energia. Em Roraima foi registrado o maior aumento do país, com uma alta expressiva de 24,13%.
Maiores reajustes de energia homologados pela ANEEL – Ciclo 2026
| Posição | Distribuidora | UF | Reajuste Homologado (%) |
| 1º | Roraima Energia | RR | +24,13 |
| 2º | Copel | PR | +20,51 |
| 3º | CPFL Santa Cruz | SP/PR/MG | +18,89 |
| 4º | RGE Sul | RS | +16,06 |
| 5º | Enel Rio | BA | +15,60 |
Uma revisão tarifária de 20,51% no Paraná, por exemplo, retira milhares de reais anuais do fluxo de caixa de uma simples panificadora, sem que o negócio receba qualquer contrapartida em melhoria do fornecimento.
Por que o custo de energia elétrica sobe todos os anos?
Esses aumentos não são pontuais, mas parte de uma escalada contínua. As projeções e o histórico recente evidenciam que a tarifa de energia sobe de forma sistemática.
O principal motor dessa alta na conta é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo que reúne recursos destinados a cobrir subsídios setoriais e políticas públicas do setor.
Para 2026, o orçamento total proposto pela ANEEL para a CDE alcançou R$ 52,7 bilhões (com R$ 47,8 bilhões cobrados diretamente nas faturas dos consumidores), registrando um crescimento de 7,11% frente aos R$ 49,2 bilhões orçados no ano anterior.
O peso dos tributos para quem está no Simples Nacional
Um novo ponto de inflexão para o planejamento dos pequenos negócios é o peso dos tributos. Atualmente, os impostos respondem por uma média de 18,1% da fatura de energia elétrica, sendo o ICMS o seu principal componente.
Para as micro e pequenas empresas enquadradas no Simples Nacional, o planejamento exige cautela jurídica redobrada: de acordo com a Lei Complementar nº 123/2006, as optantes desse regime especial de tributação não podem utilizar ou destinar qualquer valor a título de incentivo fiscal, o que limita as estratégias tradicionais de compensação e abatimento tributário de energia.
Os “jabutis” que encarecem a conta de todo mundo
No campo político, o cenário exige monitoramento constante. O Brasil sofre com os chamados “jabutis”, emendas parlamentares inseridas em projetos de lei que impõem custos artificiais ao sistema.
O CLP aponta o caso da privatização da Eletrobras, na qual o Congresso obrigou a contratação compulsória de usinas termelétricas inflexíveis a gás natural em regiões específicas e de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs).
Essa arquitetura legal foi ainda mais sobrecarregada pela posterior Lei nº 15.097/2025, que adicionou novas contratações mandatórias, rateando custos por meio das tarifas de todos os consumidores.
Eficiência energética como caminho de sobrevivência
Diante de gargalos estruturais e regulatórios difíceis de serem revertidos no curto prazo, a sobrevivência das MPEs passa obrigatoriamente pela gestão ativa do próprio consumo.
O contorno desse problema exige, num primeiro passo, investir em eficiência energética. Isso significa trocar refrigeradores antigos por modelos de alta eficiência (Selo Procel A), adequar motores comerciais, adotar sistemas de climatização inteligente e cortar o desperdício físico de energia.
O novo papel do consultor de energia solar
Esse cenário econômico reposiciona completamente o mercado de serviços elétricos no Brasil. O profissional integrador de energia solar não pode mais se portar apenas como um instalador de placas.
A asfixia financeira do pequeno negócio exige que esse profissional atue como um consultor completo em gestão energética.
A venda da tecnologia fotovoltaica deve estar atrelada ao monitoramento contínuo do consumo e à orientação regulatória. O consultor energético precisa conduzir o pequeno empresário na migração e uso estratégico da Tarifa Horária e, no futuro, obrigatória instruindo a loja ou a fábrica a deslocar o seu consumo para fora do horário de pico (onde o custo do kWh é mais punitivo).
Ao somar tecnologia, inteligência tarifária e controle, a assessoria em energia deixa de ser apenas uma despesa de adequação e se converte no passaporte para que o pequeno negócio brasileiro volte a competir e crescer.
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