Tecnologia e regulação alinhadas: quais impactos o mercado de armazenamento elétrico causará no mercado de MMGD?

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As recentes resoluções normativas publicadas pela ANEEL ampliam o horizonte de possibilidades para o cenário das empresas integradoras de energia solar, desenvolvendo um ponto de maturação inegável com a consolidação normativa do armazenamento de energia MMGD (Micro e Minigeração Distribuída).

Sob a ótica da engenharia elétrica e da regulação responsiva, a integração de baterias atrás do medidor deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar um mercado central de flexibilidade das redes de distribuição.

Este avanço, que já encontrava na Lei Federal nº 14.300/22 o suporte legal, no qual introduziu o conceito de fontes despacháveis no Sistema de Compensação de Energia Elétrica – SCEE, agora se resguarda com norma reguladora que destrincha o operacional.

Para entender o que mudou, a operacionalização desse comando sobre fontes despacháveis dependia de norma regulamentadora, ou seja, detalhamento de como essa relação de usinas solares, fontes intermitentes, seriam convertidas em fontes despacháveis.

Ao classificar os bancos de baterias associados à geração fotovoltaica local como Sistemas de Armazenamento de Energia (SAE) colocalizados, o regulador isentou o consumidor cativo da necessidade de obter outorgas complexas de agente armazenador autônomo.

Essa decisão elimina a burocracia excessiva e garante a manutenção dos direitos tarifários adquiridos na regra de transição, destravando um mercado de baixa tensão que passará a exigir um operacional atento na gestão do consumo e não apenas a geração passiva.

Limite de 90% evita arbitragem tarifária no armazenamento

Contudo, a ANEEL elaborou as regras com limites rigorosos para salvaguardar a modicidade tarifária e o equilíbrio físico do Sistema Interligado Nacional.

A principal salvaguarda imposta pela agência reguladora, consubstanciada nos extensos debates técnicos de encerramento da Consulta Pública nº 39/2023, foi a limitação da capacidade do sistema de armazenamento a noventa por cento da produção diária estimada da central geradora renovável colocalizada.

Esta restrição atua como uma barreira antifraude estrita, desenhada deliberadamente para coibir a arbitragem tarifária ilícita na rede de distribuição.

Sem essa limitação de engenharia, o usuário poderia recarregar suas baterias com a energia de baixo custo da rede pública durante a madrugada e injetá-la de volta no horário de ponta, auferindo créditos irreais como se fosse energia limpa recém-gerada.

O regulador garantiu, assim, que a bateria sirva primordialmente para o deslocamento da energia fotovoltaica autogerada, mitigando o esgotamento físico dos transformadores das concessionárias durante o pico de injeção solar diurno e aliviando a severa rampa de exigência térmica no início da noite.

Tarifa branca aumenta ganhos com baterias solares

A verdadeira atratividade econômica dessa integração colocalizada revela-se na intersecção direta com as modalidades tarifárias com variação horária.

Ainda em estudo, a conversão da modalidade da tarifa branca, hoje opcional, em breve torna-se obrigatória, fará com que a atratividade da operação e dos custos sejam maiores.

É isso o que indica a TR Soluções em recente análise, apontando que baterias em usinas solares podem aumentar ganhos da MMGD em até 60%.

O advento e a expansão da Tarifa Branca alteram esse paradigma de forma contundente ao aplicar sinais de preço dinâmicos, encarecendo substancialmente o custo do kilowatt-hora faturado no horário de ponta.

O estudo da TR Soluções evidencia que o consumidor equipado com painéis fotovoltaicos e armazenamento em baterias de íon-lítio torna-se virtualmente imune a essa agressividade tarifária por meio da prática de deslocamento de carga, conhecida na literatura de engenharia como load shifting.

Durante o dia, no posto fora de ponta onde a energia possui valor reduzido, o excedente da geração solar recarrega as baterias.

Ao anoitecer, o inversor híbrido inteligente bloqueia o consumo proveniente da rede da concessionária e passa a suprir a carga residencial ou comercial integralmente com a energia previamente armazenada.

O consumidor otimiza seu retorno financeiro sem depender da injeção externa, enquanto a distribuidora de energia se beneficia da drástica redução do estresse em sua malha nos momentos mais críticos de carregamento.

Eletrificação veicular exige gestão inteligente da rede

A urgência sistêmica dessa gestão inteligente de demanda é exponencialmente amplificada pela iminente e massiva eletrificação da frota automotiva no país.

A mobilidade elétrica adiciona uma nova carga de proporções inéditas às redes de distribuição locais.

Um veículo elétrico de passeio conectado à tomada residencial no início da noite coincide exatamente com o horário de maior exigência estrutural do sistema elétrico nacional, ameaçando a vida útil dos componentes e impondo a necessidade de reforços de rede de altíssimo dispêndio de capital, cujo custo seria invariavelmente socializado entre todos os consumidores cativos.

A integração tecnológica orquestrada entre a microgeração distribuída, o banco de baterias estacionário e os carregadores veiculares configura-se como a resposta técnica mais assertiva para esse gargalo operativo.

O prosumidor detém a flexibilidade de gerenciar sua recarga veicular utilizando a energia solar retida em suas baterias ao longo do dia ou aproveitando a madrugada profunda, período em que a tarifa é atrativa e a rede de distribuição apresenta ampla ociosidade.

Essa sinergia não apenas viabiliza a transição orgânica para a eletromobilidade sem colapsar a infraestrutura pública, mas também encurta o tempo de recuperação do capital (payback) investido nos sistemas híbridos, fundamentado na grande diferença de custo entre o abastecimento tradicional a gasolina e o carregamento por meio da eletricidade descentralizada.

Value stacking abre novas receitas para o consumidor

Para extrair o valor integral dessas inovações de equipamentos de eficiência, o mercado elétrico brasileiro precisa evoluir para a monetização direta dos benefícios sistêmicos prestados por esses usuários.

Os estudos recentes da Greener, destaca que o armazenamento distribuído não deve ser interpretado apenas como uma ferramenta passiva de resiliência isolada, mas primordialmente como um ativo dinâmico de flexibilidade sistêmica.

O aprofundamento das modelagens regulatórias aponta para a necessidade iminente de permitir o empilhamento de receitas (Value Stacking), conceito onde a mesma bateria que realiza o corte de pico particular também poderá participar de programas coordenados de resposta da demanda.

A ANEEL, ciente dessa inadiável fronteira de modernização, previu a implementação de Sandboxes Regulatórios nos próximos ciclos de sua agenda tática.

Esses ambientes controlados de experimentação normativa testarão a atuação de agregadores, empresas que atuarão como usinas virtuais interligando milhares de pequenas baterias distribuídas para oferecer serviços de suporte dinâmico de tensão e regulação de frequência aos operadores locais de distribuição.

O consumidor deixará de atuar isoladamente na redução de sua conta para se transformar em um provedor de serviços ancilares remunerado.

Eficiência do sistema exige rigor técnico

Não obstante o otimismo em torno das projeções comerciais, a execução técnica de arranjos de microgeração com baterias exige profunda governança e rigor termodinâmico nos cálculos preditivos.

Um dos parâmetros físicos mais críticos nas modelagens financeiras de alta performance é a eficiência de ciclo completo do sistema de armazenamento, denominada round-trip efficiency.

O processo de conversão eletroquímica nas células, somado ao chaveamento em alta frequência nos conversores eletrônicos de potência durante o ciclo de carga e descarga, gera dissipações térmicas inelidíveis.

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Escrito por:

Polo Sebrae

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